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sábado, 11 de fevereiro de 2012

eisFluências de Dezembro de 2009




PRECISO QUEBRAR O SILÊNCIO
por NALDOVELHO

Preciso quebrar o silêncio, libertar o verbo aprisionado em mim. Desentranhar sentimentos, materializar substantivos, enfatizar adjetivos, construir uma oração onde o tempo seja o eterno recomeçar.
Preciso quebrar correntes, revelar segredos, atirar pela janela todos os meus guardados, móveis, tapeçarias, utensílios, quadros, deixar a casa vazia, inclusive de espelhos... Preciso me reconstruir por inteiro.
Preciso telefonar, urgentemente, para aquele amigo que se fez ausente. Preciso saber onde errei e se ainda há tempo, e se não errei: preciso saber aceitar seu silêncio.
Preciso abrir portas e janelas, deixar o vento varrer toda a casa, e que os pássaros invadam a sala; preciso alimentá-los, principalmente de amor.
Preciso me apaixonar outra vez, reler tuas cartas, escrever outras, dizer que te amo, e ainda quê, há tanto tempo, ao meu lado, te abraçar com ternura, tratar de ti com cuidado.
Preciso cuidar melhor do meu jardim, regar na medida certa, flores e folhagens, podar alguns galhos secos, retirar ervas daninhas, partes amareladas, apodrecidas.
Preciso do abraço amigo, dos olhos nos olhos sem máscaras, da palavra que exorcize o medo de falar daquilo que gosto, e ainda assim, deixar bem claro que respeito, quem prefira de um outro jeito e compreendo a vida que têm para viver.
Preciso caminhar por este mundo, respirar o ar que ainda posso, rever lugares, pessoas, cidades, varar madrugadas desertas, saborear frutas colhidas sem pressa, curtir o som das águas de um rio a lapidar pedras, margens, caminhos; sentir
o cheiro da chuva, das ervas escolhidas, remédios.
Preciso rever lua cheia e que não seja contaminada pelas luzes que vêm da cidade, e ao amanhecer forasteiro num lugar distante de tudo, entender que a vida podia ser diferente daquela que eu escolhi pra viver. Preciso acreditar que ainda existem muitas vidas a serem vividas e muitos outros lugares por onde eu possa me conhecer.
Preciso caminhar pela praia, sentir a areia entre os dedos, colher pedrinhas, conchinhas, reencontrar aquela sereia, mergulhar com ela nas águas, pedir a benção madrinha! Licença, pro teu filho, vim te visitar.
Preciso morrer daqui a algum tempo, e que seja uma morte sem dor. Que eu encerre como se fosse um poema, escrito por urgências de vida, por inquietudes estranhas, latentes, e eu fiz o melhor que pude! Fui um poeta, ainda que tardio, da linguagem da minha gente; pois sou caboclo, mestiço, cafuzo, visceralmente confuso, sem medidas métricas ou rimas, confessadamente insano pelo muito que semeei.

Preciso comer certas sementes, deixar que elas germinem, e no tempo certo floresçam dentro de mim.


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