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Terça-feira, 17 de Abril de 2012

eisFluências de Abril de 2012


abril de 2012
Caminho das pedras
por Abilio Pacheco

Essa é uma expressão muito comum em se tratando de dar dicas para quem quer se tornar um escritor (literário) ou para quem quer seguir uma profissão que exige algo mais que a técnica. Já é mais do que óbvio, posto já ser deveras repetido, que para se tornar um bom escritor, o ideal é ler, ler bastante. Acrescento ainda que o ideal é ler bastante do gênero de texto que você pretende escrever. Para ser um bom poeta, leia bons poetas. Para ser um bom romancista, leia os bons romancistas.
No finzinho da adolescência, fui cheio de espinhas, empacotado num macacão do SENAI até o campus da Universidade Federal do Pará em Marabá procurar um professor de Literatura para ele me sugerir algum livro (teórico – acho que eu queria um manual ou algo assim) que me ensinasse a escrever poesia. O professor Gilson Penalva, que mais tarde de seria meu orientador de monitoria, exatamente da disciplina Teoria Literária, desconversou, disse-me da inutilidade que seria a teoria, que não haveria material didatizado sobre o assunto e, como eu insisti, terminou me encaminhando para um outro profissional do magistério. Sugeriu que eu fosse falar com uma professora do ensino médio de uma escola estadual.
Ora, eu não sou metade do que o Gilson era já naquela época, mas me mostro, além de professor de literatura, escritor. Talvez por isso vez por outra alguém vem me perguntar o tal caminho das pedras, como se eu realmente o soubesse ou já tivesse trilhado por ele. Já disse que o ideal é ler bastante do gênero que você quer aprender, ou se dedicar, mas acredito que os relatos dos autores sobre a produção de seus romances também são bons passos entre penedos. Não exatamente as autobiografias ou memórias, embora alguns capítulos catando entre banalidades seja possível encontrar algo proveitoso, como o capítulo 4 do livro O texto, ou: a vida – uma trajetória literária[1], de Moacyr Scliar.



Aliás, o capítulo todo não, somente a partir da página 124. O livro de Moacyr Scliar, como bem diz o subtítulo, não é uma biografia, mas sim um memorial em que relata de sua trajetória de vida no que se refere à atividade de escritor.  Algo parecido com o que fez Manuel Bandeira em seu Itinerário de Pasárgada (aos que querem trilhar o caminho das pedras da poesia sugiro este e também Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke).
Aos leitores que desejam ser romancistas seguem as sugestões que longe de serem dicas, mas parecem um roteiro de leituras a obedecer praticamente em ordem didática. Comecem por dois textos de romancistas brasileiros do século XIX: Como e porque sou romancista[2], de José de Alencar, e Instinto de Nacionalidade[3], de Machado de Assis. O texto de Alencar reforça a minha afirmação sobre a importância do contato com o gênero ao qual se quer dedicar o jovem escritor. Alencar era o leitor da casa quando no “horário nobre” não havia televisão; na época, sentava-se a ouvir a leitura das novelas e romances de folhetim, principalmente de autores franceses e ingleses. E “foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?”, Alencar se pergunta meio que afirmando. Já o texto de Machado de Assis serve principalmente para neófitos que moram regiões não hegemônicas, como os meus autores “patrícios” da Amazônia, e mais ainda da Amazônia Paraense (existe isso?), que querem porque querem escrever sobre... a Amazônia. Uma vontade imperiosa de cantar, escrever, elogiar, fotografar, registrar, divulgar o torrão natal. Deve-se – creio eu – cantar os dramas humanos que acontecem em qualquer lugares ou época. O romancista deve se preocupar também com a boa urdidura da trama, com a construção dos personagens, com os efeitos causados pelo narrador. Descrições quase sem fim são descartáveis e o espaço na maioria das vezes um mero complemento.
Ainda na literatura brasileira sugiro a leitura do romance O risco do bordado, de Autran Dourado, e o livro Uma poética de romance, do mesmo autor


[1] André Luis Mansur publicou uma boa crítica/resenha/comentário a este livro: [http://criticasmansur.blogspot.com/2010/05/o-texto-ou-vida-de-moacyr-scliar_7644.html]
[2] O download dessa obra pode ser feito em: [http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000311.pdf]
[3] O download pode ser feito em: [http://www.ufrgs.br/cdrom/assis/massis.pdf]

Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

eisFluências de Fevereiro de 2012 - Suplemento





Sinagoga Kahal Zur Israel
por Mercêdes Pordeus

No próximo dezoito de março será mais um DIA NACIONAL DA IMIGRAÇÃO JUDAICA e para entendermos melhor sobre a presença judaica no Brasil e mais especificamente em Pernambuco até o governo holandês, por isso abordamos o tema e falamos também sobre a Primeira sinagoga das Américas, localizada no Recife.
Em primeiro lugar, transcrevo o texto do historiador Leonardo Dantas da Silva, nascido no Recife.


UMA COMUNIDADE JUDAICA NA AMÉRICA PORTUGUESA
Leonardo Dantas Silva [(*)]
(publicação do texto, autorizado pelo autor)

Perseguidos pela Inquisição, os judeus, disfarçados em cristãos-novos, tentavam estabelecer-se no Brasil onde, em algumas partes, detinham 14% da população economicamente ativa. Quando da Dominação Holandesa (1630-1654), a comunidade do Recife veio a ser conhecida internacionalmente, sendo o seu passado objeto do interesse dos estudiosos dos nossos dias. A importância dos cristãos-novos e judeus na formação do Brasil colonial é estudada, de forma pioneira, pelo Prof. José Antônio Gonsalves de Mello, a partir da publicação de Tempo dos Flamengos - Influenciada ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil (1947) e de forma mais pormenorizada em Gente da Nação - Cristãos-novos e judeus em Pernambuco 1642-1654, Recife: FUNDAJ - Editora Massangana, 1989; 2ª ed. Recife: FUNDAJ - Editora Massangana, 1996.

Da Espanha para o mundo

Quando em 1492 os Reis Católicos de Espanha, Isabel e Fernando de Aragão, vieram a expulsar os judeus sefardins do seu território, parte das famílias transferiu-se para Portugal. A paz durou pouco, pois já em 1497, D. Manuel, Rei de Portugal, obrigou o batismo cristão de todos os judeus, criando assim a figura do cristão-novo, determinando a expulsão daqueles que não viessem a adotar a religião católica romana. Assim, segregados em determinadas áreas urbanas e obrigados a adotar uma nova religião, os judeus permaneceram em terras do Portugal continental e em terras de além-mar, alguns praticando às escondidas rituais da Lei Mosaica, até 1536, quando da implantação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Temendo o poder da Inquisição, responsável por milhares de vítimas quando de sua atuação na Espanha, a gente da nação, como também eram chamados os judeus, iniciou a sua dispersão em busca de outras terras. Em 1537, Carlos V autorizou a instalação de alguns deles em Antuérpia; em 1550, Henrique V, de França, permite o estabelecimento de homens de negócios e "outros portugueses cristãos-novos" [sic] em cidades francesas, dando assim origem aos grupos conversos de Bordéus, Baiona, Tolosa, Nantes, Ruão; que só viriam a ser reconhecidos como membros da comunidade judaica no séc. XVIII. Na década de 1590, iniciou-se a migração da França para Hamburgo e Amsterdam, cidades onde vieram a se fixar. Outros, porém, movidos pela aventura e pela possibilidade de enriquecimento fácil, vieram tentar a sorte no Brasil, onde chegaram a integrar uma considerável parte da população, estimada em 14% na capitania de Pernambuco. (clique na revista para ler a continuação)

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

eisFluências de Fevereiro de 2012



ESCOLA, FAMÍLIA E CULTURA
por Carlos Lúcio Gontijo

As escolas, mais que nunca, precisam inserir as famílias no processo educacional como meio de ao menos alcançar alguma diminuição no avanço do nível de rebeldia e agressão por parte dos adolescentes. As análises dos estudiosos e técnicos que lidam com dados relativos à violência no ambiente escolar sugerem que, antes de ser vistos como simples casos de polícia, problemas como droga e demais transgressões cometidas por crianças e adolescentes devem, numa primeira fase, ser tratados como questões pelas quais as escolas e as famílias precisam responsabilizar-se.
Logicamente, para abraçar essa exigência, a estrutura escolar necessita equipar-se adequadamente, com quadros suficientes de psicólogos e assistentes sociais, que tenham condições de dialogar com os lares dos quais provêm os alunos com problemas de comportamento ou dificuldade de aprendizado, uma vez que os professores e as escolas não podem ser utilizados como substitutos ou tomar o lugar de pai e mãe, que não raro visualizam a entidade escolar como depósito de crianças e adolescentes com as quais não conseguem ou não têm tempo de lidar.
O trabalho psicopedagógico com estudantes flagrados usando drogas no entorno ou mesmo no interior de instituições de ensino merece uma avaliação mais abrangente e multidisciplinar, envolvendo psicólogos, professores e pais, pois que é notória a percepção de que, quase sempre, os jovens usuários de drogas não são apenas jovens de lares desestruturados, mas indivíduos que vivem em ambientes nos quais impera o diálogo familiar ruim, em que é cada vez mais comum pai e mãe trabalharem para o sustento material dos filhos, ficando sem o tempo necessário para o estreitamento dos laços afetivos de compreensão, confiança, respeito e amizade, o que leva os lares a ser constituídos por estranhos que moram sob o mesmo teto. E, convenhamos, o simples apelo à força da consanguinidade pouco vale nesses casos!
Todavia é bom que nos lembremos de que educação e cultura no Brasil sempre foram áreas desprezadas e mal administradas ou tratadas como de menor relevo, apesar de todas as autoridades constituídas terem pleno conhecimento de que o país não chegará a lugar algum se não coadunar o crescimento da economia com a evolução do nível educacional de sua gente. Se assim não se der, o Brasil jamais passará de nação rica com povo pobre, porque sempre haverá bolsões de miseráveis e cidadãos incapazes de cuidar de si mesmos, exatamente pela letargia advinda da ignorância e falta de discernimento. A explícita realidade é que não existe nada mais dispendioso para o Estado que o cidadão desprovido de escolaridade e conhecimento suficiente em face das exigências do mercado de trabalho cada vez mais informatizado.
Quem como nós se entrega ao exercício da literatura e do jornalismo assiste à crescente escassez de leitores, num panorama tortuoso e de difícil saída, principalmente quando nos deparamos com caderno de cultura da importância de um jornal “Globo”, desperdiçando o precioso espaço de seu site para mesurar quantas vezes as “meninas” do Big Brother Brasil de 2011 se masturbaram no transcorrer do educativo programa. Não há como envidar esforços em prol da educação em meio a tantos fatores de deseducação dessa magnitude.
O povo brasileiro (todos nós) está à espera da inauguração de uma escola assentada em ensino democrático, onde a comunidade escolar seja protegida pela prática de conceitos didático-pedagógicos modernos, ministrados por professores bem remunerados e em constante reciclagem. Somente dessa maneira nosso sistema de ensino será capaz de transmitir conteúdo didático e lições de solidariedade e amor ao próximo, que ficarão fixados na mente dos estudantes através da harmônica sintonia entre instituições de ensino e pais de alunos, numa interação que, mais que salvar jovens da ignorância, os afastará da delinquência proveniente do poder de cooptação praticado pelos inescrupulosos agentes do narcotráfico, que tão bem sabem tirar proveito da falta de união, compromisso social, senso coletivo e congraçamento da chamada sociedade organizada.

Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

eisFluências de Dezembro de 2011 - Suplemento



DEVANEIOS NATALINOS
Conto de Ary Franco
         
Durante a noite sou despertado por uma luz intensa que invadiu o quarto em que dormia. O relógio digital sobre a mesinha de cabeceira marcava 2:34h.
Assusto-me ao ver um homem, estranhamente vestido, envolto em um manto, sentado ao pé da minha cama e um menino de uns quatorze anos, em pé atrás dele. Sinto que aquela figura me é familiar, muito embora, nunca tenha sido bom fisionomista. Faço menção de sentar-me mas não consigo e, ao mesmo tempo, quero indagar, quem é você? O que o senhor faz aqui no meu quarto? Mas minha voz não sai.
Para surpresa minha, a pessoa responde-me, sem pronunciar uma única palavra:
– Nada temas. Vim em paz, para visitar-te. Chamo-me Jesus, sou teu irmão, portanto, não me trates por senhor.
Atônito, paralisado, ouço ao lado minha esposa ressonando, alheia ao que estava se passando.
– Jesus... Cristo? E quem é este menino atrás do senh.. de você?
– Este é o teu protetor. Acompanha-te desde que nascestes e costumas chamá-lo de anjo da guarda, em tuas orações.
– Mas ele não tem asas! Ambos sorriem e continuamos falando-nos, sem palavras proferidas, apenas em pensamentos transmitidos telepaticamente.
– Já que não voas, para acompanhar-te ele não necessita de asas!
– A que devo sua sublime visita, se és realmente quem dizes ser?
– Como já expliquei, vim visitar-te. Aproveito para pedir que intensifiques as ajudas que prestas ao próximo. Sei que podes fazer mais do que tens feito. Quando fores chamado pelo Nosso Pai é preciso que carregues em tua bagagem apenas coisas leves, importantes e essenciais que facilitem tua subida até Ele. Enche-a de amor, benevolência, perdão, caridade, carinho, solidariedade, humildade, bondade, auxilia teus irmãos mais carentes e necessitados. Não leves contigo rancor, ambição, ódio, vingança, revolta, egoísmo, desprezo, ingratidão, orgulho, indiferença. Livra-te de todos esses sentimentos pesados, negativos e pecaminosos, que só servirão para dificultar tua última viagem em ascensão a Deus Nosso Pai.
– Prometo, doravante, proceder como você diz e quero aproveitar para dar-lhe parabéns pelo seu aniversário que será comemorado, agora neste dia 25 de dezembro.
– Que ele seja por ti comemorado mas dividindo tuas alegrias com os nossos irmãos enfermos e carentes. Agora terei que ir para fazer outras visitas. Contigo permanecerá teu Anjo da Guarda, como costumas chamar.
A escuridão voltou ao quarto e eu corri para trancar-me no banheiro e chorar profusamente. Foi um pranto silencioso abafado pela emoção e afogado em lágrimas que adoçaram minha boca ao por ela passarem.
Para não fazer barulho, algum tempo depois, recomposto, voltei descalço para a cama, deixando meus chinelos no banheiro. Virando a cabeça no travesseiro, vi que o relógio digital mostrava-me as mesmas 2:34h que tinha visto, quando da aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Então, entendi que nada daquilo havia acontecido, a prova evidente era a hora indicada no relógio. Virei-me para o lado e consegui conciliar meu sono, embalado pelo lindo sonho que acabara de ter e que havia me despertado, mas que nem da cama havia eu me levantado.
Só que um arrepio percorreu meu corpo, ao acordar no raiar do dia: MEUS CHINELOS ESTAVAM NO BANHEIRO! Prostrei-me de joelhos em fervorosa oração!

Ary Franco
Poeta e contista
RN/BR 


eisFluências de Dezembro de 2011



AS CARACTERÍSTICAS DA ARTE MODERNA
Por Clóvis Campêlo

Segundo José Guilherme Merquior no livro "Formalismo e tradição moderna: o problema da arte na crise da cultura", de 1974, é dentro da própria consciência geradora do saber da cultura ocidental que a estética moderna encontrará campo para dar vazão ao sentimento de insatisfação que a invade. Mostra-nos o autor que nada "poderia ser mais eloquente do que a simples menção da influência de duas ciências humanas na arte moderna: a psicanálise e a antopologia". E ambas se prestam a esse papel por provocarem constantes "deslocamentos" no pensamento que as gerou. Assim, munidos de novos "instrumentos", os artistas modernos encontram condições de manifestar a negação e a perplexidade da arte em relação aos caminhos dos tempos contemporâneos. Valorizando os impulsos libertários do inconsciente, bloqueados pela ética do pensamento conservador, os modernos passam a salientar o "caráter repressivo do princípio da realidade" como uma limitação às possibilidades vitais do homem. Assumem, desse modo, uma postura "vocacionalmente surrealista", instalando, no bojo do seu pensamento, a "mística da liberdade espiritual", fonte da contracultura de vanguarda no final do século passado.
A desconfiança da arte moderna ante os valores da cultura ocidental faz com que, juntamente com a vontade de ruptura cultural, desenvolva-se, na primeira, uma tendência ao hermetismo. Tal tendência intensifica o isolacionismo cultivado pelo artista a partir do pós-romantismo, afastando, com desdém, a estética moderna das massas (muito embora estas se mostrem cada vez mais alfabetizadas) e encaminhando a arte moderna para uns postura semântica elitista. O poeta moderno cerca de obstáculos o acesso ao significado da mensagem poética e, almejando alcançar um público seleto, cria obras que jogam com significados incertos, esquivos e obscuros.
Por compreender que o fácil entendimento das obras significa a banalização e a alienação da informação (tal assertiva torna-se interessante em um mundo caracterizado pela "democratização" da informação e pela proliferação do simulacro enquanto meio de consciência cósmica, ao mesmo tempo em que serve para desnudar mais um aspecto contraditório das artes modernas), o bardo moderno envereda por caminhos esotéricos e inusitados (mudança quanto ao conteúdo), enquanto adota contra a linguagem comum (alteração quanto à forma) o que Ramon Jakobson, numa tentativa de definir a literatura sob a ótica dos formalistas, classificou como "violência organizada".
Concomitantemente a esse movimento de afastamento das massas verificado na estética moderna, a arte de vanguarda experimenta uma "universalização dos horizontes mentais", estabelecendo entre os artistas modernos uma comunicabilidade definitivamente diluidora do sentimento de "cor local" dos românticos e que, transcendendo as nacionalidades, provoca o cruzamento de temas e estilos, em que pese cada literatura estar irremediavelmente ligada ao espírito da sua língua.
Desse modo, segundo a ótica de Merquior, são quatro os movimentos que caracterizam a passagem da arte romântica para a arte moderna: a mudança de uma concepção mágica de arte para uma concepção lúdica, desdobrada em visão grotesca (jogo quanto ao conteúdo) e experimentalismo (jogo quanto à forma); transformação da oposição cultural romântica em ruptura; afastamento das grandes massas e tendência para o hermetismo, e, encaminhamento da poética atual para o cosmopolitismo e para um futuro planetário.
No entanto, se o primeiro movimento faz com que a arte moderna manifeste uma saudável tendência de revigoramento e renovação, ao mesmo tempo em que nega os valores culturais que contradizem a afirmação humana, tendência essa confirmada no movimento de ruptura (afastamento), o terceiro movimento (elitização e hermetismo) é contraditório e caminha em sentido inverso aos anteriores. Por seu lado, o quarto movimento (cosmopolitismo) parece nos indicar que a grande arte, perdida a sua função mágica e situada em uma cultura de massa onde prevalece a divisão de classes (característica supranacional), exercita essa permeabilização universalista como forma de uma adaptação necessária à sua sobrevivência.
Para finalizar, consideremos que o conceito de arte moderna, ainda segundo Merquior, prende-se muito mais aos fatores internos observados nas obras de arte do que a sua contemporaneidade. Tal fato se deve a permanência, ainda hoje, na tradição da arte moderna de elementos românticos não submetidos ao novo estilo e que atuam como fatores de estreitamento e de enfraquecimento da arte moderna, reduzindo a sua capacidade de elaboração de uma crítica da cultura e diminuindo a sua energia criadora. Dessa maneira, nem toda a arte contemporânea pode ser considerada "arte moderna", assim como podemos estabelecer a existência de diversos graus de "modernidade".

Clóvis Campêlo
Recife/Br


eisFluências de Outubro de 2011



DOIS ANOS
Dois anos de eisFluências.

Dois anos onde pusemos as nossas esperanças e o nosso amor à arte da divulgação cultural.
Dois anos em que procurámos incansavelmente, oferecer ao leitor o que de melhor há em literatura, pesquisando meios desconhecidos do publico leitor, e enfrentando as dificuldades inerentes a qualquer revista, para obtermos o prazer final da edição que vá agradar a quem nos lê.
Podemos parecer presunçosos, mas se analisarmos profundamente cada revista, desde a primeira edição, veremos  como a cada edição fomos crescendo, não só na aparência, como no conteúdo.
Foi um começar atabalhoado, próprio de qualquer revista nova que se dá à estampa, e somente na continuação se foram firmando os nossos quereres.
A Direção da revista eisFluências, bem como os seus autores coadjuvantes,  é composta por pessoas que amam a literatura, amam a poesia e as artes em geral e, sobretudo, gostam de partilhar conhecimentos.
É na partilha de conhecimentos que reside o maior bem da humanidade e sem essa partilha ainda hoje dormiríamos na idade da pedra.
Todos sabemos que a internet nos abriu perspectivas nunca antes imagináveis e que através dela tomámos vários poderes, inclusive o da divulgação literária.
Mas muitas pessoas ainda não têm acesso a este bem maior, por isso a eisFluências desde o seu primeiro número preocupou-se em transmitir o conhecimento a pessoas privadas desse acesso, imprimindo cem exemplares para distribuir por órgãos ligados à cultura.
Tarefa difícil, se pensarmos que a impressão desses exemplares sai do orçamento familiar de quem faz a revista e, por isso, em Agosto, a revista no seu site http://eisfluencias.ecosdapoesia.org/ lançou a campanha “Doações” .
Entretanto, temos tido gratas surpresas, como a de chegarmos a consultórios e vermos várias revistas eisFluências expostas, para quem as quiser ler enquanto espera a solução para os seus males.
Certo dia, num consultório, uma pessoa que lia quase que avidamente a revista, comentou connosco (sem saber quem éramos) a utilidade do acesso gratuito à cultura, num consultório onde geralmente só se encontram revistas sem valor cultural.
Isso levou-nos a pensar, mais uma vez, que as pessoas têm avidez de cultura e só não acessam a ela porque a selva da cidade não deixa, nem a dispõe em locais de fácil acesso. Aqueles locais onde o público tem de parar obrigatoriamente e onde a maioria das vezes cochila ou vê os defeitos do teto, ou aprecia intimamente o modo de vestir de cada um, sem ter algo mais para percorrer com os olhos, sem ter uma revista que lhe dê algo diferente.
Isto é, também, caro leitor, a nossa (vossa) revista eisFluências.
A eisFluências procura chegar aonde a cultura não chega e pretende ser um órgão de divulgação, competente e multifacetada, igualmente para estes leitores, da cultura mais afastados.
Muito, mas mesmo muito, há a fazer ainda, assim Deus o permita.
É com orgulho, muita fé e perseverança que chegámos aqui e queremos continuar, pelo menos com mais um zero à frente do dois, (?) e se a vida não nos permitir, outros que o façam por nós, mas com a mesma seriedade, amor e competência.
Contamos consigo, estimado leitor, e para o ano cá estaremos, se Deus quiser, para comemorarmos juntos mais um aniversário.
Para todos uma boa leitura

Victor Jerónimo
Director da revista eisFluências
Recife/Brasil
Lisboa/Portugal

eisFluências de Agosto de 2011



O HOMEM E A FLOR DO IPÊ AMARELO
Luiz Poeta
( Luiz Gilberto de Barros ) – às 18 h e 52 min do dia 22 de julho de 2011 do Rio de Janeiro, especialmente para a revista eisFluências.

O modestíssimo  homem caminhava pela cidade, levando uma flor... pela mão.
Não era uma flor qualquer...era uma flor de ipê amarelo, que o acompanhava e ria para o pudico sorriso de uma pessoa apenas preocupada em misturar fantasias com reflexões.
Seguindo cada passo que ambos davam, os passarinhos pulavam de galho em galho, de fio em fio, entoando cantos que contrastavam com os rumores metropolitanos. E para completar sinestesias paralelas, borboletas multicoloridas emolduravam aquele momento único, desfilando vangogues dentro dos olhos da flor e dos sonhos do homem.
Os indivíduos que estavam em frente à banca de jornais situada no coração da praça, ou que tomavam suas bebidas matinais, olecraniados nos balcões das padarias e bares, e que taquicardiavam conversas ruidosamente gesticuladas, os condutores dos ônibus lotados de pressas e reclamações,  os motoristas de veículos particulares transitando confortos de pendrives plugando canções sonolentas, e todos quantos ali estavam, celebrando a fisiologia da vida,  pararam para olhar a inusitada imagem daquele homem simplório  conduzindo  uma magnífica flor de ipê amarelo... pela mão.
Não se sabia definir quem era mais louco: o homem com a flor, a flor com o homem, o padre que se benzera, o ciclista que caíra sobre uma freira orando, ao celular, o bêbado que raciocinara, o policial que se auto-algemara, a vocalize que silenciara, o capitalista  que se engravatara a um filósofo da plebe rude, espremidos, todos, unissonamente boquiabrindo sussurros, estarrecidos diante daquela inefável cena que se movimentava na ternura ótica dos que ainda sonambulam lirismos diurnos, observando algum resquício de poesia nos jardins de uma praça espremida entre sombras arquitetônicas que se esgueiram de prédios absurdamente monumentais.
O homem era pequenino, esquálido, compulsivamente feliz, gengivando sorrisos no espasmo das mais tenras e ternas alegrias... a sedutora flor apenas dourava o ambiente, despetalando taciturnas seduções, e  distraindo-se com a simpaticíssima e bucólica solidão humana que tornava aquele cidadão, mais que gente, uma outra alma... de flor.
Súbita, abrupta e repentinamente, como consequência daquele êxtase coletivo de olhares perdidos, mirando um simples homem e uma flor humanizada,  inúmeras freadas sonorizaram pequenas tragédias metropolitanas: colisões traseiras e dianteiras... sons de buzinas, sirenes, motores, berros, agressões verbais vocativando pornofonias...   viaturas policiais ecoando advertências, ambulâncias escavando estrias territoriais no trânsito congestionado que estuprava calmarias... todos se modificaram, tornando-se  descontroladamente irritados, desvairadamente estressados... mas todos sabiam quem eram os culpados ! O homem e a flor de ipê amarelo !
E era preciso puni-los, madalenizá-los, agredi-los, linchá-los... matá-los ! Exterminá-los da agitação das calçadas impregnadas de fumaça e odores peculiarmente urbanos...
Os grupos foram se avolumando, organizando-se numa trôpega multidão entorpecida pela sede de vingança e que, a exemplo de alguns vermes que se deglutem, transformava-se em uma massa disforme de humanidade e densa de vorazes ameaças.
O descontrole era geral. Gritarias, buzinas, sirenes e roncos de motores tornavam-se mais estridentes ainda... decibéis estupravam silêncios. Todos empurravam-se, xingavam-se, agrediam-se física, psicológica e instintivamente...
Num átimo, tiros no ar, gente correndo, gritando, pisoteando-se, cachorros latindo, estridências, confusão e um súbito... silêncio .
Bebadamente gradativa, a calma tornou-se sonolenta e suprimiu cada eco que ainda pairava no ar, transformando-se numa paz profundamente metafísica... findos todos os ruídos humanos, mecânicos, instintivos ou fisiológicos, cada olhar voltou-se  definitivo, para uma inevitável direção.
Nela, o homem e a flor pareciam sublimar a leveza das suas derradeiras passadas, tornando inefáveis aqueles líricos minutos de um passeio eternizado em cada retina perdida em trôpegas abstrações transcendentais.
Numa última, inequívoca e sublime troca de olhares, suas atitudes não careciam de palavras.
Ele deitou-se num banco de concreto, suspirou seu último sorriso e adormeceu, polinizando eternos devaneios. Seus olhos nebulosamente azuis desmaiaram sobre a  mansidão amarela de uma flor de ipê...
Delicadamente, uma tênue brisa acariciou, uma a uma, todas as pétalas que bailaram no ar, polinizando,  com afetuosa generosidade, o encantamento dos velhinhos que ainda sonham, a lúdica abstração das crianças que não conhecem o pecado e sobrenatural  pureza dos poetas que ainda voam, como pétalas... de ipês... amarelos.
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Rio de Janeiro/Br