terça-feira, 14 de agosto de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
eisFluências junho de 2012
(Clique na revista para aceder ao texto completo)
NAÇÃO CRIOULA E A
TEORIA DE BAKHTIN
RESENHA
Por Isabel C.S. Vargas
Nação Crioula de autoria de José Eduardo Agualusa, autor
nascido em Angola com amplo conhecimento daquela realidade e profundo interesse
pela realidade brasileira, mostra o romance que ocorreu no século XIX entre
Fradique Mendes, um aventureiro português e Ana Olímpia Vaz de Caminha, uma
figura capaz de enriquecer qualquer narrativa pela vida cheia de situações
diferentes e antagônicas, pois embora nascida escrava foi uma das mulheres mais
ricas e poderosas daquela região africana de cultura portuguesa, ou seja,
Angola.
É importante ressaltar que Fradique Mendes é um personagem
de Eça de Queirós que Agualuza tomou por empréstimo para personagem central de
seu romance incluindo na sua narrativa o próprio Eça de Queirós. Misturam-se
personagens e pessoas reais.
A história se desenrola entre 1868 a 1900 e é contada
através das cartas trocadas por Fradique Mendes e sua madrinha, Madame Jouarre,
entre ele e Ana Olímpia e com Eça de Queirós.
Nas cartas relata seu trânsito entre personagens ricos,
pobres, do clero, malfeitores, passando por situações inusitadas desde sua
chegada em Angola, sua, às vezes, turbulenta permanência, o encontro casual com
Ana Olímpia, por quem de imediato nutre um sentimento especial e todo o
suspense – poderia dizer drama – que envolve sua amada até poder libertá-la
para com ela viver.
Fradique não tem um trabalho, vive da mesada que sua
madrinha lhe envia, mesmo assim tem uma vida de regalias em Angola. As cartas
narram os episódios ocorridos em Angola de 1868 a 1876. Posteriormente, viaja
para Pernambuco naquele que talvez fosse o último navio negreiro da época, o
NAÇÃO CRIOULA, para fugir de seus perseguidores e de Ana Olímpia, pois suas
vidas corriam perigo.
A partir daí suas missivas são de Olinda para onde se
transferem, a princípio, para casa de amigos e, mais tarde, para uma
propriedade que adquire na Bahia onde passa a viver de forma abastada
reproduzindo a vida de muitos senhores com quem tivera contato em suas
andanças, com escravos e bens. Lá tem uma filha, mas não permanece no Brasil.
Posteriormente, vai para a França, onde morre.
Ana Olímpia e a filha Sophia fazem o caminho de volta para
África.
O romance termina com uma carta de Ana Olímpia a Eça de
Queirós onde ela relata a sua história.
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terça-feira, 17 de abril de 2012
eisFluências de Abril de 2012
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Caminho das pedras
por Abilio Pacheco
Essa
é uma expressão muito comum em se tratando de dar dicas para quem quer se
tornar um escritor (literário) ou para quem quer seguir uma profissão que exige
algo mais que a técnica. Já é mais do que óbvio, posto já ser deveras repetido,
que para se tornar um bom escritor, o ideal é ler, ler bastante. Acrescento
ainda que o ideal é ler bastante do gênero de texto que você pretende escrever.
Para ser um bom poeta, leia bons poetas. Para ser um bom romancista, leia os
bons romancistas.
No
finzinho da adolescência, fui cheio de espinhas, empacotado num macacão do
SENAI até o campus da Universidade Federal do Pará em Marabá procurar um
professor de Literatura para ele me sugerir algum livro (teórico – acho que eu
queria um manual ou algo assim) que me ensinasse a escrever poesia. O professor
Gilson Penalva, que mais tarde de seria meu orientador de monitoria, exatamente
da disciplina Teoria Literária, desconversou, disse-me da inutilidade que seria
a teoria, que não haveria material didatizado sobre o assunto e, como eu
insisti, terminou me encaminhando para um outro profissional do magistério.
Sugeriu que eu fosse falar com uma professora do ensino médio de uma escola
estadual.
Ora,
eu não sou metade do que o Gilson era já naquela época, mas me mostro, além de
professor de literatura, escritor. Talvez por isso vez por outra alguém vem me
perguntar o tal caminho das pedras, como se eu realmente o soubesse ou já
tivesse trilhado por ele. Já disse que o ideal é ler bastante do gênero que
você quer aprender, ou se dedicar, mas acredito que os relatos dos autores
sobre a produção de seus romances também são bons passos entre penedos. Não
exatamente as autobiografias ou memórias, embora alguns capítulos catando entre
banalidades seja possível encontrar algo proveitoso, como o capítulo 4 do livro
O texto, ou: a vida – uma trajetória literária[1],
de Moacyr Scliar.
Aliás,
o capítulo todo não, somente a partir da página 124. O livro de Moacyr Scliar,
como bem diz o subtítulo, não é uma biografia, mas sim um memorial em que
relata de sua trajetória de vida no que se refere à atividade de escritor. Algo parecido com o que fez Manuel Bandeira em
seu Itinerário de Pasárgada (aos que querem trilhar o caminho das pedras
da poesia sugiro este e também Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria
Rilke).
Aos
leitores que desejam ser romancistas seguem as sugestões que longe de serem
dicas, mas parecem um roteiro de leituras a obedecer praticamente em ordem
didática. Comecem por dois textos de romancistas brasileiros do século XIX: Como
e porque sou romancista[2],
de José de Alencar, e Instinto de Nacionalidade[3],
de Machado de Assis. O texto de Alencar reforça a minha afirmação sobre a
importância do contato com o gênero ao qual se quer dedicar o jovem escritor.
Alencar era o leitor da casa quando no “horário nobre” não havia televisão; na
época, sentava-se a ouvir a leitura das novelas e romances de folhetim,
principalmente de autores franceses e ingleses. E “foi essa leitura contínua e
repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a
tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?”,
Alencar se pergunta meio que afirmando. Já o texto de Machado de Assis serve
principalmente para neófitos que moram regiões não hegemônicas, como os meus
autores “patrícios” da Amazônia, e mais ainda da Amazônia Paraense (existe
isso?), que querem porque querem escrever sobre... a Amazônia. Uma vontade
imperiosa de cantar, escrever, elogiar, fotografar, registrar, divulgar o
torrão natal. Deve-se – creio eu – cantar os dramas humanos que acontecem em
qualquer lugares ou época. O romancista deve se preocupar também com a boa
urdidura da trama, com a construção dos personagens, com os efeitos causados
pelo narrador. Descrições quase sem fim são descartáveis e o espaço na maioria
das vezes um mero complemento.
Ainda
na literatura brasileira sugiro a leitura do romance O risco do bordado,
de Autran Dourado, e o livro Uma poética de romance, do
mesmo autor
[1] André Luis Mansur publicou uma boa crítica/resenha/comentário a este
livro: [http://criticasmansur.blogspot.com/2010/05/o-texto-ou-vida-de-moacyr-scliar_7644.html]
[2] O download dessa obra pode ser feito em: [http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000311.pdf]
[3] O download pode ser feito em: [http://www.ufrgs.br/cdrom/assis/massis.pdf]
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
eisFluências de Fevereiro de 2012 - Suplemento
por Mercêdes Pordeus
No próximo dezoito de março será
mais um DIA NACIONAL DA IMIGRAÇÃO JUDAICA e para entendermos melhor
sobre a presença judaica no Brasil e mais especificamente em Pernambuco até o
governo holandês, por isso abordamos o tema e falamos também sobre a Primeira
sinagoga das Américas, localizada no Recife.
Em primeiro lugar, transcrevo o
texto do historiador Leonardo Dantas da Silva, nascido no Recife.
UMA COMUNIDADE JUDAICA NA AMÉRICA PORTUGUESA
Leonardo Dantas Silva
[(*)]
(publicação do texto, autorizado pelo autor)
Perseguidos pela Inquisição, os judeus, disfarçados em cristãos-novos,
tentavam estabelecer-se no Brasil onde, em algumas partes, detinham 14% da
população economicamente ativa. Quando da Dominação Holandesa (1630-1654), a
comunidade do Recife veio a ser conhecida internacionalmente, sendo o seu
passado objeto do interesse dos estudiosos dos nossos dias. A importância
dos cristãos-novos e judeus na formação do Brasil colonial é estudada, de forma
pioneira, pelo Prof. José Antônio Gonsalves de Mello, a partir da publicação de
Tempo dos Flamengos - Influenciada
ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil (1947) e de
forma mais pormenorizada em Gente da
Nação - Cristãos-novos e judeus em Pernambuco 1642-1654, Recife: FUNDAJ -
Editora Massangana, 1989; 2ª ed. Recife: FUNDAJ - Editora Massangana, 1996.
Da Espanha para o mundo
Quando em 1492 os Reis Católicos
de Espanha, Isabel e Fernando de Aragão, vieram a expulsar os judeus sefardins
do seu território, parte das famílias transferiu-se para Portugal. A paz durou
pouco, pois já em 1497, D. Manuel, Rei de Portugal, obrigou o batismo cristão
de todos os judeus, criando assim a figura do cristão-novo, determinando a
expulsão daqueles que não viessem a adotar a religião católica romana. Assim,
segregados em determinadas áreas urbanas e obrigados a adotar uma nova
religião, os judeus permaneceram em terras do Portugal continental e em terras
de além-mar, alguns praticando às escondidas rituais da Lei Mosaica, até 1536,
quando da implantação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Temendo o
poder da Inquisição, responsável por milhares de vítimas quando de sua atuação
na Espanha, a gente da nação, como também eram chamados os judeus, iniciou a
sua dispersão em busca de outras terras. Em 1537, Carlos V autorizou a
instalação de alguns deles em Antuérpia; em 1550, Henrique V, de França,
permite o estabelecimento de homens de negócios e "outros portugueses
cristãos-novos" [sic] em cidades francesas, dando assim origem aos grupos
conversos de Bordéus, Baiona, Tolosa, Nantes, Ruão; que só viriam a ser
reconhecidos como membros da comunidade judaica no séc. XVIII. Na década de
1590, iniciou-se a migração da França para Hamburgo e Amsterdam, cidades onde
vieram a se fixar. Outros, porém, movidos pela aventura e pela possibilidade de
enriquecimento fácil, vieram tentar a sorte no Brasil, onde chegaram a integrar
uma considerável parte da população, estimada em 14% na capitania de
Pernambuco. (clique na revista para ler a continuação)
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
eisFluências de Fevereiro de 2012
ESCOLA, FAMÍLIA E CULTURA
por Carlos Lúcio Gontijo
As escolas, mais que nunca, precisam
inserir as famílias no processo educacional como meio de ao menos alcançar
alguma diminuição no avanço do nível de rebeldia e agressão por parte dos
adolescentes. As análises dos estudiosos e técnicos que lidam com dados
relativos à violência no ambiente escolar sugerem que, antes de ser vistos como
simples casos de polícia, problemas como droga e demais transgressões cometidas
por crianças e adolescentes devem, numa primeira fase, ser tratados como
questões pelas quais as escolas e as famílias precisam responsabilizar-se.
Logicamente, para abraçar essa exigência,
a estrutura escolar necessita equipar-se adequadamente, com quadros suficientes
de psicólogos e assistentes sociais, que tenham condições de dialogar com os
lares dos quais provêm os alunos com problemas de comportamento ou dificuldade
de aprendizado, uma vez que os professores e as escolas não podem ser
utilizados como substitutos ou tomar o lugar de pai e mãe, que não raro
visualizam a entidade escolar como depósito de crianças e adolescentes com as
quais não conseguem ou não têm tempo de lidar.
O trabalho psicopedagógico com estudantes
flagrados usando drogas no entorno ou mesmo no interior de instituições de
ensino merece uma avaliação mais abrangente e multidisciplinar, envolvendo
psicólogos, professores e pais, pois que é notória a percepção de que, quase
sempre, os jovens usuários de drogas não são apenas jovens de lares
desestruturados, mas indivíduos que vivem em ambientes nos quais impera o
diálogo familiar ruim, em que é cada vez mais comum pai e mãe trabalharem para
o sustento material dos filhos, ficando sem o tempo necessário para o
estreitamento dos laços afetivos de compreensão, confiança, respeito e amizade,
o que leva os lares a ser constituídos por estranhos que moram sob o mesmo
teto. E, convenhamos, o simples apelo à força da consanguinidade pouco vale
nesses casos!
Todavia é bom que nos lembremos de que
educação e cultura no Brasil sempre foram áreas desprezadas e mal administradas
ou tratadas como de menor relevo, apesar de todas as autoridades constituídas
terem pleno conhecimento de que o país não chegará a lugar algum se não
coadunar o crescimento da economia com a evolução do nível educacional de sua
gente. Se assim não se der, o Brasil jamais passará de nação rica com povo
pobre, porque sempre haverá bolsões de miseráveis e cidadãos incapazes de
cuidar de si mesmos, exatamente pela letargia advinda da ignorância e falta de
discernimento. A explícita realidade é que não existe nada mais dispendioso
para o Estado que o cidadão desprovido de escolaridade e conhecimento
suficiente em face das exigências do mercado de trabalho cada vez mais
informatizado.
Quem como nós se entrega ao exercício da
literatura e do jornalismo assiste à crescente escassez de leitores, num
panorama tortuoso e de difícil saída, principalmente quando nos deparamos com
caderno de cultura da importância de um jornal “Globo”, desperdiçando o
precioso espaço de seu site para mesurar quantas vezes as “meninas” do Big
Brother Brasil de 2011 se masturbaram no transcorrer do educativo programa. Não
há como envidar esforços em prol da educação em meio a tantos fatores de
deseducação dessa magnitude.
O povo brasileiro (todos nós) está à
espera da inauguração de uma escola assentada em ensino democrático, onde a
comunidade escolar seja protegida pela prática de conceitos
didático-pedagógicos modernos, ministrados por professores bem remunerados e em
constante reciclagem. Somente dessa maneira nosso sistema de ensino será capaz
de transmitir conteúdo didático e lições de solidariedade e amor ao próximo,
que ficarão fixados na mente dos estudantes através da harmônica sintonia entre
instituições de ensino e pais de alunos, numa interação que, mais que salvar
jovens da ignorância, os afastará da delinquência proveniente do poder de
cooptação praticado pelos inescrupulosos agentes do narcotráfico, que tão bem
sabem tirar proveito da falta de união, compromisso social, senso coletivo e
congraçamento da chamada sociedade organizada.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
domingo, 12 de fevereiro de 2012
eisFluências de Dezembro de 2011 - Suplemento
DEVANEIOS NATALINOS
Conto de Ary Franco
Durante a noite sou despertado por uma
luz intensa que invadiu o quarto em que dormia. O relógio digital sobre a
mesinha de cabeceira marcava 2:34h.
Assusto-me ao ver um homem, estranhamente
vestido, envolto em um manto, sentado ao pé da minha cama e um menino de uns
quatorze anos, em pé atrás dele. Sinto que aquela figura me é familiar, muito
embora, nunca tenha sido bom fisionomista. Faço menção de sentar-me mas não
consigo e, ao mesmo tempo, quero indagar, quem é você? O que o senhor faz aqui
no meu quarto? Mas minha voz não sai.
Para surpresa minha, a pessoa
responde-me, sem pronunciar uma única palavra:
– Nada temas. Vim em paz, para
visitar-te. Chamo-me Jesus, sou teu irmão, portanto, não me trates por senhor.
Atônito, paralisado, ouço ao lado minha
esposa ressonando, alheia ao que estava se passando.
– Jesus... Cristo? E quem é este menino
atrás do senh.. de você?
– Este é o teu protetor. Acompanha-te
desde que nascestes e costumas chamá-lo de anjo da guarda, em tuas orações.
– Mas ele não tem asas! Ambos sorriem e
continuamos falando-nos, sem palavras proferidas, apenas em pensamentos transmitidos
telepaticamente.
– Já que não voas, para acompanhar-te ele
não necessita de asas!
– A que devo sua sublime visita, se és
realmente quem dizes ser?
– Como já expliquei, vim visitar-te.
Aproveito para pedir que intensifiques as ajudas que prestas ao próximo. Sei
que podes fazer mais do que tens feito. Quando fores chamado pelo Nosso Pai é
preciso que carregues em tua bagagem apenas coisas leves, importantes e
essenciais que facilitem tua subida até Ele. Enche-a de amor, benevolência,
perdão, caridade, carinho, solidariedade, humildade, bondade, auxilia teus
irmãos mais carentes e necessitados. Não leves contigo rancor, ambição, ódio,
vingança, revolta, egoísmo, desprezo, ingratidão, orgulho, indiferença.
Livra-te de todos esses sentimentos pesados, negativos e pecaminosos, que só
servirão para dificultar tua última viagem em ascensão a Deus Nosso Pai.
– Prometo, doravante, proceder como você
diz e quero aproveitar para dar-lhe parabéns pelo seu aniversário que será
comemorado, agora neste dia 25 de dezembro.
– Que ele seja por ti comemorado mas
dividindo tuas alegrias com os nossos irmãos enfermos e carentes. Agora terei
que ir para fazer outras visitas. Contigo permanecerá teu Anjo da Guarda, como
costumas chamar.
A escuridão voltou ao quarto e eu corri para
trancar-me no banheiro e chorar profusamente. Foi um pranto silencioso abafado
pela emoção e afogado em lágrimas que adoçaram minha boca ao por ela passarem.
Para não fazer barulho, algum tempo
depois, recomposto, voltei descalço para a cama, deixando meus chinelos no
banheiro. Virando a cabeça no travesseiro, vi que o relógio digital mostrava-me
as mesmas 2:34h que tinha visto, quando da aparição de Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Então, entendi que nada daquilo havia
acontecido, a prova evidente era a hora indicada no relógio. Virei-me para o
lado e consegui conciliar meu sono, embalado pelo lindo sonho que acabara de
ter e que havia me despertado, mas que nem da cama havia eu me levantado.
Só que um arrepio percorreu meu corpo, ao
acordar no raiar do dia: MEUS CHINELOS ESTAVAM NO BANHEIRO! Prostrei-me de
joelhos em fervorosa oração!
Ary Franco
Poeta e contista
RN/BR
eisFluências de Dezembro de 2011
AS CARACTERÍSTICAS DA ARTE
MODERNA
Por Clóvis Campêlo
Segundo José Guilherme Merquior no livro
"Formalismo e tradição moderna: o problema da arte na crise da
cultura", de 1974, é dentro da própria consciência geradora do saber da
cultura ocidental que a estética moderna encontrará campo para dar vazão ao
sentimento de insatisfação que a invade. Mostra-nos o autor que nada
"poderia ser mais eloquente do que a simples menção da influência de duas
ciências humanas na arte moderna: a psicanálise e a antopologia". E ambas
se prestam a esse papel por provocarem constantes "deslocamentos" no
pensamento que as gerou. Assim, munidos de novos "instrumentos", os
artistas modernos encontram condições de manifestar a negação e a perplexidade
da arte em relação aos caminhos dos tempos contemporâneos. Valorizando os
impulsos libertários do inconsciente, bloqueados pela ética do pensamento
conservador, os modernos passam a salientar o "caráter repressivo do
princípio da realidade" como uma limitação às possibilidades vitais do
homem. Assumem, desse modo, uma postura "vocacionalmente
surrealista", instalando, no bojo do seu pensamento, a "mística da
liberdade espiritual", fonte da contracultura de vanguarda no final do
século passado.
A desconfiança da arte moderna ante os
valores da cultura ocidental faz com que, juntamente com a vontade de ruptura
cultural, desenvolva-se, na primeira, uma tendência ao hermetismo. Tal
tendência intensifica o isolacionismo cultivado pelo artista a partir do
pós-romantismo, afastando, com desdém, a estética moderna das massas (muito
embora estas se mostrem cada vez mais alfabetizadas) e encaminhando a arte moderna
para uns postura semântica elitista. O poeta moderno cerca de obstáculos o
acesso ao significado da mensagem poética e, almejando alcançar um público
seleto, cria obras que jogam com significados incertos, esquivos e obscuros.
Por compreender que o fácil entendimento
das obras significa a banalização e a alienação da informação (tal assertiva
torna-se interessante em um mundo caracterizado pela "democratização"
da informação e pela proliferação do simulacro enquanto meio de consciência cósmica,
ao mesmo tempo em que serve para desnudar mais um aspecto contraditório das
artes modernas), o bardo moderno envereda por caminhos esotéricos e inusitados
(mudança quanto ao conteúdo), enquanto adota contra a linguagem comum
(alteração quanto à forma) o que Ramon Jakobson, numa tentativa de definir a
literatura sob a ótica dos formalistas, classificou como "violência
organizada".
Concomitantemente a esse movimento de
afastamento das massas verificado na estética moderna, a arte de vanguarda
experimenta uma "universalização dos horizontes mentais",
estabelecendo entre os artistas modernos uma comunicabilidade definitivamente
diluidora do sentimento de "cor local" dos românticos e que,
transcendendo as nacionalidades, provoca o cruzamento de temas e estilos, em
que pese cada literatura estar irremediavelmente ligada ao espírito da sua
língua.
Desse modo, segundo a ótica de Merquior,
são quatro os movimentos que caracterizam a passagem da arte romântica para a
arte moderna: a mudança de uma concepção mágica de arte para uma concepção
lúdica, desdobrada em visão grotesca (jogo quanto ao conteúdo) e
experimentalismo (jogo quanto à forma); transformação da oposição cultural
romântica em ruptura; afastamento das grandes massas e tendência para o
hermetismo, e, encaminhamento da poética atual para o cosmopolitismo e para um
futuro planetário.
No entanto, se o primeiro movimento faz
com que a arte moderna manifeste uma saudável tendência de revigoramento e
renovação, ao mesmo tempo em que nega os valores culturais que contradizem a
afirmação humana, tendência essa confirmada no movimento de ruptura
(afastamento), o terceiro movimento (elitização e hermetismo) é contraditório e
caminha em sentido inverso aos anteriores. Por seu lado, o quarto movimento
(cosmopolitismo) parece nos indicar que a grande arte, perdida a sua função
mágica e situada em uma cultura de massa onde prevalece a divisão de classes
(característica supranacional), exercita essa permeabilização universalista
como forma de uma adaptação necessária à sua sobrevivência.
Para finalizar, consideremos que o
conceito de arte moderna, ainda segundo Merquior, prende-se muito mais aos
fatores internos observados nas obras de arte do que a sua contemporaneidade.
Tal fato se deve a permanência, ainda hoje, na tradição da arte moderna de
elementos românticos não submetidos ao novo estilo e que atuam como fatores de
estreitamento e de enfraquecimento da arte moderna, reduzindo a sua capacidade
de elaboração de uma crítica da cultura e diminuindo a sua energia criadora.
Dessa maneira, nem toda a arte contemporânea pode ser considerada "arte
moderna", assim como podemos estabelecer a existência de diversos graus de
"modernidade".
Clóvis
Campêlo
Recife/Br
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