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sábado, 29 de dezembro de 2012

Natal 2012 - 1° Caderno



O Natal existe!
Ivone Boechat

Vamos supor que nada do que os homens acreditam sobre o Natal fosse verdade?

Que aquilo tudo que os profetas disseram sobre o nascimento de Jesus, indicando até o local, era somente uma historinha pra nenhum boi dormir na estrebaria mais bonita do mundo. Que o coral de anjos nos céus de Belém, cantando a sinfonia maravilhosa, cuja letra a humanidade inteira sabe cantar (quem não canta é porque não quer, mas sabe) era somente para assustar e desmaiar pastores no campo...

Vamos supor que os reis magos, vindo de muito longe, do oriente, talvez de Bagdá, carregando presentes caríssimos, era uma propina e que cientistas pesquisadores queriam somente passear, usurpando verbas, em jurisdição alheia, nas barbas de outro rei.

Vamos supor que a fuga da família para o Egito era somente uma excursão para gastar as milhas acumuladas no lombo do burrinho de Nazaré a Jerusalém. Ou que Herodes decretou a matança das crianças só para agradar os aliados da base do seu corrupto governo.

Vamos supor que a Escola que Jesus fundou na Galiléia com educação presencial e virtual, com módulos para o ensino à distância, escrito pelos alunos ou que a sua preocupação ao mostrar a importância do uso correto da rede (web) ensinando a acessar, convidando a Pedro Tiago e João para o seu twiter (segue-me...)  ensinando a Pedro a se ligar ao provedor, dando-lhe a senha (Tudo o que ligares na terra...) foi só uma coincidência com a linguagem virtual de hoje.

Vamos supor que o sermão do monte era uma tese de doutorado, nada mais, e que os valores ensinados eram somente a oportunidade para implantar a merenda escolar, a cesta básica, o vale refeição, o exercício do Pai Nosso supervisionado.

Vamos supor que as curas maravilhosas, que não foram o foco principal do ministério de Jesus, mas sim o Seu plano de salvação, serviram somente para atiçar a inveja dos políticos milagreiros e que a cruz foi a sentença por um crime político de traição ao poder dos governantes. Se tudo isso fosse uma metáfora, se vivêssemos só esperando a felicidade e a recompensa na Terra, se não pudéssemos comemorar o Natal, porque Jesus não é o Salvador prometido, é um filósofo famoso, com jornada acadêmica encerrada, então poderíamos  parafrasear o Apóstolo Paulo:

 “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”. I Coríntios 15:9

Ivone Boechat

Dezembro de 2012



FÉ – GRAÇA OU CONQUISTA?
Humberto Rodrigues Neto

Ao contrário do que afirmam nossos irmãos de outras crenças, também cristãs, ninguém nasce com a fé, e não acredito seja ela uma graça especial de Deus concedida apenas àqueles que a mereçam.
A fé constrói-se na certeza do que nos é ensinado racionalmente, e jamais adquirida na crença em dogmas de difícil assimilação quando submetidos ao crivo do bom senso.
Construímo-la a cada dia, pedacinho a pedacinho, ante a racionalidade do que nos ensinam os bons espíritos e em face das provas irrefutáveis que a todo instante nos chegam através das mensagens que nos comunicam.
É por isso que a nossa fé é firme e não admite dubiedade ou incerteza naquilo em que realmente acreditamos.
Enquanto a doutrinação dos demais irmãos cristãos é ministrada horizontalmente, do centro para os lados, ao rés do chão, a nossa se irradia verticalmente, de cima para baixo.
Vamos tentar explicar melhor como se processa a mecânica de tais procedimentos.
Nas demais ideologias fundamentadas no Cristianismo, um homem lê as escrituras, interpreta-as a seu modo e as transmite a vários outros homens, os quais, por sua vez, as retransmitem a um grupo de outros seres, e assim sucessivamente, sempre horizontalmente, ao nível do solo.
Falível que é o ser humano, a cada transmissão de uns para os seguintes, jamais estarão livres de acrescentar conceitos pessoais e particulares àquilo que recebem, havendo, portanto, a probabilidade sempre presente de adulterações das verdades constantes dos textos originais naquilo que dizem.
A nossa filosofia, porém, nasce e vem diretamente do alto, através da voz direta dos enviados de Deus, os bons espíritos, e caem verticalmente sobre nós, imunes a interferências e livres de quaisquer erros de interpretação, já que adrede submetidos ao criterioso exame de confrades assaz experientes nessas lides.

A fé dos outros é imposta. A nossa é aceita. Eis a grande diferença.

Temos fé, não pela necessidade de sermos agradáveis a Deus, mas por estarmos convictos da verdade existente naquilo em que acreditamos.

Humberto Rodrigues Neto
S.Paulo/Brasil 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

outubro de 2012 - Caderno I


Jogo feito
por Jorge Cortás Sader Filho

Chovia fino naquela madrugada fria de meados de julho.

Interessante. A gente nunca sabe o que pode acontecer numa hora desta. O homem já com alguma idade, uns trinta e pouco, talvez, ajeitava sua japona grossa, da marinha mesmo, comprada numa loja de uniformes perto do Primeiro-Distrito Naval. Não passava frio nem no gelo, se estivesse por cima de camisa de malha com mangas compridas, como o mal-encarado estava usando. Moreno, boa altura, sapatos mocassim pretos, calça de veludo cotelê, preta também.
O conhaque espanhol estava em cima da mesa, com um copo próprio pela metade, ele já havia tomado um pouco. Acariciava uma Colt, calibre quarenta e cinco, sua arma de predileção. Estas pistolas atuais, que dão mais de quinze tiros, não são eficazes como a velha Government Model. Pesadona, boa de empunhar, sem apresentar nenhum defeito se a munição for nova ou dentro do prazo de validade. Especialmente naquela noite a arma não poderia falhar.
Goteiras pingavam a água da chuva, no velho galpão onde fora residência de um caseiro do sítio, e guardava velhas tralhas de jardinagem. Alheio a tudo isto, o homem magro continuava a beber seu conhaque com café, enquanto fumava e mexia na pistola, engatilhando, levando o cão até a frente, tirando o carregador e a bala da câmara. 
Como uma brincadeira, repetia os movimentos incessantemente. Viu quando os faróis da caminhoneta moderna varreram o quintal. “Chegou a hora”, falou consigo mesmo. Experimentado, colocou a garrafa de conhaque e dois tocos de cigarros fumados numa mochila que carregava. No bule de café e no copo não tinham suas digitais. Havia usado uma luva fina, as impressões eram de outra pessoa.

Meses antes, uma conhecida e belíssima artista de teatro e novelas de televisão, havia se passado de armas e bagagens para o lado do conhecido financista Affonso, no momento negociando uma casa de venda de pedras preciosas. Coisa grande, mas o antigo dono da maior joalheria do Rio tinha dinheiro, além de ser conhecedor de gemas de valor. A última delas era a artista famosa. Namorava o seu filho, um homem de trinta e dois anos, também metido com negócios, com a vantagem de possuir sólida formação matemática, ciência em que havia se bacharelado. Apresentara a namorada ao pai e jantaram juntos, num conhecido e elegante lugar da moda, em Ipanema. Foi o bastante para o velho ter virado a cabeça. Conhecia os casos do filho, sempre envolvido com beldades por causa de dois atributos fortes e muito favoráveis: era bonito e rico, além de jovem.

Dois meses depois, a guria já estava casada, casadíssima com o velho Affonso, que não se cansava de admirar a beleza da esposa e consumir muitos comprimidos contra a famosa disfunção erétil. Dava sempre certo.

Célio, o filho, ficou puto da vida, mas não tinha como alterar as coisas. A sacana da guria tinha trapaceado, e com o pai! 

Primeiro ele pensou em encher a gaúcha de porrada. Mas quem já foi treinado para matar sempre prefere esta opção. Havia cursado a escola de formação de oficiais da reserva do exército, e gostou muito do núcleo das forças especiais, onde saiu habilitado com louvor.

Os faróis continuavam a varrer a mata do sítio, e já não havia mais chuva, apenas a relva molhada, na qual a jovem caiu para não mais levantar, com o vestido molhado de sangue.

Jorge Cortás Sader Filho
Niterói/BR

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terça-feira, 16 de outubro de 2012

eisFluências Outubro 2012 - Caderno II


VIDA DE SANTO
por Marcelo Sguassábia

Engana-se quem pensa que vida de santo é um infinito dolce far niente. Nem ao mais preguiçoso deles é dada a graça de ficar chupando chicabon eternidade afora. E aquele estereótipo de se recostar em nuvens, entre cânticos e cítaras, é mais coisa de anjo que de santo – e anjo de quadro barroco, idealizado e fora de contexto histórico.
Santo passa maus bocados, verdade seja dita. E nem por isso os devotos lhes tratam com o devido respeito, o respeito que o santo, justamente por ser santo, exige.
Por exemplo, esse estranho hábito terráqueo de entornar no mínimo 10% da cachaça no chão da venda, dizendo que é pro santo. Posso dizer com certeza que todos eles abrem mão da homenagem e passam muito bem sem ela. Se gostasse mesmo de água que passarinho não bebe, santo não seria santo. Muito pelo contrário.
Depois, tem outra: manda a Justiça Divina que, toda vez que se oferece algo pro santo, e não se especifica pra qual santo é o presente, a oferenda seja repartida por todos indistintamente. Vai daí que cada gole oferecido é dividido, em partes iguais, para a santosfera inteira. Sabendo-se que os santos são atualmente milhares, a cada um cabe geralmente uma gotinha de nada – e não é isso que vai desviar a santaiada do bom caminho. Até aí, nada de mais. Mas acontece que se a gente levar em conta que cada pinguço manda pra goela pelo menos uns três copos da marvada, e que só no Brasil temos milhões de alcoólatras, o estrago divino é grande, provocando em vários deles internações frequentes – quando não diárias. E as mais prejudicadas são as santas, que com um tiquinho de martini já estão trançando as pernas.
Outro problema sério é as imagens dos santos – tanto as pintadas quanto as esculpidas. Tem santo lá em cima que excomunga sem dó alguns dos displicentes artistas terrenos, pela falta de semelhança deles com as imagens que os representam. Esse tipo de episódio produz verdadeiras catástrofes estéticas. Outro dia mesmo toda a corte celeste saiu em passeata, com cartazes, faixas e gritos de guerra, protestando contra um lote de 250 estátuas de Santa Edwiges que saiu de fábrica com cara de Rita Cadilac. Um repulsivo sacrilégio, que merece punição exemplar. Para evitar novos contratempos, São Tomé propôs em assembleia a instituição do selo “Ver para Crer”, que certifica a imagem beatificamente reconhecida, ou seja, aquela que tem a benção do respectivo santo e que guarda nítida semelhança com a sua figura dos tempos de carne e osso.
Além desse tipo de desrespeito, há também injustiças que agridem e irritam a turma de auréola. A maldosa e irônica expressão “Na descida todo santo ajuda” vem merecendo, de uns tempos para cá, um revide da parte dos ofendidos. Julgam eles que a frase denota uma certa acomodação, dando a entender que os santos têm braço curto e que não se empenham nas tarefas mais difíceis, onde só um milagre pode resolver a parada. “Não vamos ajudar mais na descida, ainda que o carro do sujeito esteja sem freio. Pois que se espafitem, aprendam a lição e vão para o inferno” desabafa um conhecido santo, que não quis se identificar.


Marcelo Pirajá Sguassábia 

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eisFluências Outubro de 2012 - Suplemento de Poesia


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domingo, 17 de junho de 2012

eisFluências junho de 2012


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NAÇÃO CRIOULA E A TEORIA DE BAKHTIN
RESENHA
Por Isabel C.S. Vargas 


Nação Crioula de autoria de José Eduardo Agualusa, autor nascido em Angola com amplo conhecimento daquela realidade e profundo interesse pela realidade brasileira, mostra o romance que ocorreu no século XIX entre Fradique Mendes, um aventureiro português e Ana Olímpia Vaz de Caminha, uma figura capaz de enriquecer qualquer narrativa pela vida cheia de situações diferentes e antagônicas, pois embora nascida escrava foi uma das mulheres mais ricas e poderosas daquela região africana de cultura portuguesa, ou seja, Angola.
É importante ressaltar que Fradique Mendes é um personagem de Eça de Queirós que Agualuza tomou por empréstimo para personagem central de seu romance incluindo na sua narrativa o próprio Eça de Queirós. Misturam-se personagens e pessoas reais.
A história se desenrola entre 1868 a 1900 e é contada através das cartas trocadas por Fradique Mendes e sua madrinha, Madame Jouarre, entre ele e Ana Olímpia e com Eça de Queirós.
Nas cartas relata seu trânsito entre personagens ricos, pobres, do clero, malfeitores, passando por situações inusitadas desde sua chegada em Angola, sua, às vezes, turbulenta permanência, o encontro casual com Ana Olímpia, por quem de imediato nutre um sentimento especial e todo o suspense – poderia dizer drama – que envolve sua amada até poder libertá-la para com ela viver.
Fradique não tem um trabalho, vive da mesada que sua madrinha lhe envia, mesmo assim tem uma vida de regalias em Angola. As cartas narram os episódios ocorridos em Angola de 1868 a 1876. Posteriormente, viaja para Pernambuco naquele que talvez fosse o último navio negreiro da época, o NAÇÃO CRIOULA, para fugir de seus perseguidores e de Ana Olímpia, pois suas vidas corriam perigo.
A partir daí suas missivas são de Olinda para onde se transferem, a princípio, para casa de amigos e, mais tarde, para uma propriedade que adquire na Bahia onde passa a viver de forma abastada reproduzindo a vida de muitos senhores com quem tivera contato em suas andanças, com escravos e bens. Lá tem uma filha, mas não permanece no Brasil. Posteriormente, vai para a França, onde morre.
Ana Olímpia e a filha Sophia fazem o caminho de volta para África.
O romance termina com uma carta de Ana Olímpia a Eça de Queirós onde ela relata a sua história.